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| Do Canadá para o Nobel da Literatura 2026 |
Cheiro
Nunca me hei-de esquecer.
Lá fora através da vinha.
Um lugar de pedra talvez uma arrecadação ou uma câmara frigorífica em desuso.
Outubro, algum frio. Feno no chão. Tínhamos ido à quinta do avô dele para dar uma ajuda
a pisar
as uvas para o vinho.
Não podes imaginar como é se nunca o fizeste —
como bolbos endurecidos de seda vermelha e molhada a explodir debaixo dos teus pés,
entre os dedos dos pés e pernas acima braços cara salpicando por todo o lado —
Atravessa logo pela roupa adentro sabes foi o que ele disse enquanto calcávamos para cima e para baixo
na cuba.
Quando as despires
vais estar toda suja de sumo.
Os olhos dele levantaram-se para mim e disse Vamos conferir.
Nua no lugar de pedra era verdade, manchas pegajosas, pele, eu deitei-me no feno
e ele lambeu.
Lambeu tudo.
Correu lá fora e trouxe nas mãos mais borras e espalhou-as
nos meus joelhos pescoço barriga lambendo. Mordiscando. Mergulhando.
Língua é para mim o cheiro de Outubro. Lembro-me que foi
como nadar num rio com uma corrente forte porque continuava a mexer-me e era difícil mexer-me
enquanto tudo à minha volta
se mexia também, aquele cheiro
de terra revirada e plantas arrefecidas e a noite a cair e
a velha cuba a fumegar ao de leve lá fora no crepúsculo e ele,
a crueza do sumo nele.
Estames nele
e como Kafka disse no fim
não me valeu de nada saber nadar sabes eu afinal não sei nadar.
Dá-se o caso de mais de 90% de todas as espécies de uva cultivadas serem variedades de
Vitis vinifera
a uva do velho mundo ou europeia
as uvas nativas da América derivam
de certas espécies de Vitis e diferem pelo seu odor intenso
bem como pelo facto de a casca se separar da polpa tão liquidamente.
A uva ideal para o vinho
é aquela que é facilmente esmagada.
Estas coisas aprendi-as com o avô
quando nos sentámos na cozinha à noite a descascar castanhas.
E também que sob circunstância alguma me devia casar com o neto
a quem ele chamou tragikos palavra do campo que tanto significa trágico como bode.
Anne Carson, in A Beleza do Marido - um ensaio ficcional em 29 tangos, trad. Tatiana Faia, não (edições), 2.ª edição, Junho de 2020, pp. 37-39.
SINOPSE:
A Beleza do Marido é um ensaio em 29 tangos, assim lhe chamou a autora, que parte da noção de Keats sobre a verdade e o poder da beleza.Mas este livro, publicado originalmente em 2001 e repleto de referências à Antiguidade Clássica, é também uma narrativa poética sobre um antigo amor que dá lugar a um casamento falhado.
O narrador sem nome - por vezes eu, por vezes a esposa - fala-nos do homem referido apenas como o marido, evocando momentos da vida em casal que tanto podem ser românticos como eróticos, divertidos, insólitos ou decisivos:um tango que pode ser dançado até ao fim. (Fonte: Wook)
