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Nínive, Hans Vredeman de Vries |
Passeio, sereno, pelas ruas de Nínive.
A cidade ofusca pela beleza - ou não fora esse mesmo o significado da palavra com que escrevemos o seu nome: Nínive, ou seja, «A Bela». O Tigre desliza como um pedaço de luz, e sei que o lado por onde caminho se situa a ocidente. Sábios que frequentam o zigurate há muito mo confirmaram.
«Quando cheguei à escola, de manhã, recitei a minha tábua, almocei, preparei a minha nova tábua, escrevi-a, terminei-a e depois marcaram-me o meu trabalho oral...quando a aula terminou, regressei a casa, entrei e encontrei o meu pai sentado. Falei-lhe do meu trabalho escrito, recitei-lhe a minha a minha tábua e ele ficou encantado...» (tábua suméria, há 4 000 anos). É assim o meu dia-a-dia. Sei que, em território distante, os homens não sabem ler nem conhecem a escrita, por isso este lugar irradia conhecimento como um sol.
Perco-me na Biblioteca que Assurbanipal II mandou reunir. A colecção é fabulosa, escrita em sumério e acádico. As placas de argila, traçadas a cuneiforme, fazem o meu deleite. A minha curta vida não me permitirá lê-las todas, mas esse é o meu sonho oculto. Os meus temas predilectos são: o mundo natural, geografia, matemática, astrologia e medicina; manuais de exorcismo e de augúrios; códigos de leis; relatos de aventuras e textos religiosos...
escrita cuneiforme |
A Literatura da sageza enche inúmeras placas. Enquanto por aqui vagueio, absorto e fascinado, recordo o Tigre que corre sereno, incauto às invasões. Os rios são o tempo e a memória, indiferentes à ignorância dos humanos.
Nínive, esplendorosa como uma bela mulher, brilha ao luar. Regresso. De memória, como num eco, recito baixinho o escrito da tábua de argila que mais me impressionou:
« A mulher desassossegada em casa acrescenta dor ao sofrimento.
Estamos condenados a morrer: gastemos.
Teremos longa vida: poupemos.
Aquele que possui muita prata pode ser feliz.
Aquele que possui muita cevada pode ser feliz.
Mas o que nada possui pode dormir.
Pode-se ter um senhor, pode-se ter um rei, mas o homem a temer é o cobrador de impostos».(tábua suméria).
Como poderei ler todas as tábuas da Biblioteca de Nínive se lá fora, num lugar longínquo, homens forjam ainda os seus artefactos de bronze?
Ana