Rara Avis in Terris, JUVENAL, Sátiras, VI, 165

sábado, 16 de julho de 2016

Fraternité

expedia.com

O lugar é muito belo. Ali, o Mediterrâneo beija suavemente uma orla de areia grossa e acordámos de espanto na nossa primeira grande viagem, aturdidos pela beleza e pelo encantamento permanente dos iniciados. Tão jovens, mal tínhamos passado os vinte anos e o peito mal continha a avassaladora paixão que, assim, uniu o meu Sul e o teu Norte. Havia gente, serenamente, nas ruas, mas nós pulámos para a praia, para o duche e para o encanto da longa marginal - «Promenade des anglais».
Estivemos, ali, mais duas vezes com o nosso filho. O encanto já não tinha a novidade, mas perdurava ainda. A luz clara, o azul tão puro, o Amor!
Agora, letras de sangue orlam este mar e desaguam naquela rua feita de verão e dos sonhos viajantes.
A barbárie e a loucura espreita em cada esquina o homem comum que ainda acredita na Humanidade...

Ana

segunda-feira, 11 de julho de 2016

Estradas

CM Etremoz

Sentámo-nos numa esplanada da praça. Dezasseis horas. Trinta e seis graus, sol a pique e uma brisa doce. Estamos tão bem aqui. Comemos um «rainha santa»...e a praça em frente, empedrada com cores claras e traçada de quadrículas pretas, gera uma geometria de exactidões. Ao longe, um monumento bélico recorda a I.ª Guerra e uma frase aí inscrita martela-me intimamente: «Só aos fracos a morte intimida...». É o berço exigente da minha terra. Estive ali inúmeras vezes e dali partiu a minha amiga, no fulgor dos seus vinte e tantos anos, para trabalhar comigo. Não chegou. Nunca mais chegou. As estradas enganosas da minha planície a levaram. 
Estremoz é um lugar assim. Notas soltas na nostalgia doce de uma tarde calma, quente respirar fremente da vida ainda por viver.
- Vamos, traz-me uma água fresca, por favor.
Bênção serena da vida.

Ana

terça-feira, 21 de junho de 2016

No princípio...

Vladimir Kush, Symphony of The Sun


Chegaram os longos dias do futuro. São quentes e caminho entre tílias. Contra o peito aperto o sol e a esperança. 
Que importa se não te explico, em intimismos banais, a doçura serena dos passos rápidos? Este mundo que se agita à superfície e que parafraseia poetas de antanho, que li um dia, olhando o Mediterrâneo, não me inspira nem arrebata. Cultismos novos juntam palavras antigas, na emergência vazia dos dias que restam. Glórias narcísicas em solidões quietas. Entendo.
Trabalho. Trabalho sempre. Trabalho, no rumor dos que esperam um novo dia de olhar luminoso. Amarei hoje e no futuro esses jovens inquietos que se sentam em filas nervosas, desventrando a alma dos Textos. Eles sabem e eu sei: no princípio era o verbo. 
Recriemos, então, o Mundo, nos longos dias do futuro!

Ana




domingo, 19 de junho de 2016

Recordando...

Salvador Dalí, 1936 (O Grande Paranóico)

« Eis o espectáculo do mundo, meu poeta das amarguras serenas e do cepticismo elegante. Desfruta, goza, contempla, já que estar sentado é a tua sabedoria...», J. Saramago, O Ano da Morte de Ricardo Reis



Sol




domingo, 12 de junho de 2016

De regresso a Portugal e ao tempo de Pessoa...









CXXXVI
I

Nunca persegui la gloria
ni dejar en la memoria
de los hombres mi canción;
yo amo los mundos sutiles,
ingrávidos y gentiles
como pompas de jabón.
Me gusta verlos pintarse
de sol y grana, volar
bajo el cielo azul, temblar
súbitamente y quebararse.



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