Rara Avis in Terris, JUVENAL, Sátiras, VI, 165

domingo, 14 de agosto de 2022

Tempos estranhos




SINOPSE (WOOK)
"Nascido precisamente ao bater da meia-noite, no exato momento em que a Índia se tornava independente, Saleem Sinai é uma criança especial. No entanto, esta simultaneidade de nascimento tem consequências para as quais ele não está preparado: poderes telepáticos ligam-no a outros 1000 «filhos da meia-noite», todos eles dotados de dons extraordinários. Indissociavelmente ligada à sua nação, a história de Saleem é um turbilhão de desastres e triunfos que espelha o percurso da Índia moderna na sua forma mais impossível e gloriosa. Publicado em 1981, Os Filhos da Meia-Noite, segundo romance de Rushdie, não só deu notoriedade ao seu autor como se tornou num fenómeno de êxito literário.
A sua adaptação ao cinema é o resultado da colaboração da realizadora Deepa Mehta com o próprio Salman Rushdie, que não só escreveu o argumento como dá também voz ao narrador."


    Considerado um escritor do realismo fantástico, na linha de Gabriel García Marques, Günter Grass, Italo Calvino, Jorge Luís Borges e tantos outros grandes autores...é visto pelo islamismo radical apenas como alguém que abandonou a sua crença muçulmana e, como tal, deverá ser morto. É este o tempo estranho em que vivemos.
    O livro que escolhi para hoje foi o que mais gostei de ler. Não li todos e muito menos os seus ensaios, mas posso defini-lo como um grande autor. A sua obra de ficção é vasta (https://www.salmanrushdie.com/books/). Aos 75 anos não merecia ser o objecto da violência. Violência é sempre isso mesmo, sejam quais forem as suas motivações. É um pensador, coisa rara no mundo actual em que tantos espartilhos nos condicionam.
    Tenho amigos de todos os credos. A religião é algo íntimo e de outro domínio. Há quem dite que só a Fé nos salvará, eu prefiro acreditar que só a tolerância o poderá fazer. Como poderemos habitar este planeta, se não soubermos respeitar cada indivíduo?
    O medo colectivo parece tomar conta de todos, como no célebre poema de Drummond de Andrade (1940):

"Congresso Internacional do Medo

Provisoriamente não cantaremos o amor,
que se refugiou mais abaixo dos subterrâneos.
Cantaremos o medo, que esteriliza os abraços,
não cantaremos o ódio porque esse não existe,
existe apenas o medo, nosso pai e nosso companheiro,
o medo grande dos sertões, dos mares, dos desertos,
o medo dos soldados, o medo das mães, o medo das igrejas,
cantaremos o medo dos ditadores, o medo dos democratas,
cantaremos o medo da morte e o medo de depois da morte,
depois morreremos de medo
e sobre nossos túmulos nascerão flores amarelas e medrosas."



    A nossa época parece dominada por um Medo que vai alastrando e que tudo contamina, terreno fértil para todos os horrores que a Humanidade tem a obrigação de conhecer pois, de muitas formas semelhantes, já os viveu.
    Sabemos, com Drummond, que este não é o tempo do lirismo - por mais belo que seja, o puro gozo estético não nos salvará!



sábado, 6 de agosto de 2022

"E que lhe ofereçam fantasia"

 

Ana Luísa Amaral, Jornal de Notícias, 6-8-2022


    Tinha agora um ar cansado, estava magra e envelhecida...como poderia ter só 66 anos? A doença levara-lhe aquele ar que habitou as minhas aulas e os recursos que a colocavam a falar na primeira pessoa para os meus alunos. Todos se aperceberam que a sua poesia era muito hábil, por vezes genial, com a mestria de quem conhecia muito bem outros autores e, também ela, os ensinara a outros alunos. Todos se aperceberam que ela nunca suplantou o meu amor por outros poetas, mas o ser feminino e doméstico de onde retirava as suas representações de poeta eram admiráveis e surpreendentes. Representações inesperadas e surpreendentes transfiguravam o quotidiano em densidade do imaginário. A sua caligrafia fluída como a fragilidade da Vida. 
    Que ano este, feito de partidas! Valha-nos a ideia de que nem os poetas, nem aqueles que muito amamos caem no esquecimento.
    


sábado, 16 de julho de 2022

"Aprender a ler as sombras"

 




    Andam os dias como sabemos. Tiranias e guerras; mais de mil incêndios, em dois dias, num país que acreditávamos de clima temperado; uma pandemia que ainda grassa; o luto; a luta.
    O meu Alentejo escalda, o meu trabalho não me larga. Quando saio, após o almoço, e atravesso o parque com a roupa negra que agora me cobre, o Sol diz-me que nem os pássaros ousam voar,  pergunta-me aonde vou eu de garrafa de água na mochila e que pressa é esta que me acelera o coração que já foi jovem.
    Do livro que agora leio, roubei o título de hoje...
    Andam os dias como sabemos e os burocratas tomaram o assento dos sábios de outrora. Ironicamente, de tão sistemáticos, parecem não vislumbrar o resultado das suas acções. Creio que se afogaram na luz azul dos seus computadores e lá ficaram prisioneiros de grelhas e de mapas desconhecidos. Diferentes que são daqueles escribas que gravavam com as suas mãos, num esforço ritmado de artesãos, os longos códigos cuneiformes. Assim nasciam as bibliotecas, assim os podemos ler até hoje. 



Museu de Israel, Jerusalém (José Alves, 2019)



   "Os signos inertes de um alfabeto tornam-se significados plenos de vida na mente. Ler e escrever alteram a nossa organização cerebral." 
                                      Siri Hustvedt, Vivir, pensar, mirar



Médio Oriente (José Alves, 2019)

    Que dificuldade terei sempre para compreender que a Humanidade se perca e caminhe de abismo em abismo! Assim, resta-me este destino irremediável de ir a sítios obscuros na tentativa de "Aprender a ler as sombras".


Ana

sexta-feira, 8 de julho de 2022

Sê tu a palavra

 

Mar Egeu, Creta - José Alves, 2012



1. Sê tu a palavra, branca rosa brava. 2. Só o desejo é matinal. 3. Poupar o coração é permitir à morte coroar-se de alegria. 4. Morre de ter ousado na água amar o fogo. 5. Beber-te a sede e partir - eu sou de tão longe. 6. Da chama à espada o caminho é solitário. 7. Que me quereis, se me não dais o que é tão meu?

                            Eugénio de Andrade, Ostinato Rigore, 1964




Creta, José Alves - 2012

segunda-feira, 20 de junho de 2022

Esquecidos: expulsos do país

 

Dancing trees, Pantai Walakiri


Ouço José Rentes de Carvalho que, aos 92 anos, caminha sem apoios e fala sem embargos. Que bem caracteriza a portugalidade! As palavras, a que chama "pepitas de ouro", saem-lhe sem afasia alguma e sem bordões de linguagem - espantoso cérebro juvenil pleno de vivências e de argúcia!
"Os políticos actuais são de uma elite do Norte e eu sou de uma pobreza do Norte".
Que falta faz a memória desse tempo antigo, na lucidez de quem observa a civilização actual! 
Tudo parece liquefeito, como se, actualmente, os olhares apenas resvalassem na superfície das coisas.
Também ele tem um blogue, que aqui vos divulgo:

O Blogue:

A entrevista de hoje:

A obra: