Rara Avis in Terris, JUVENAL, Sátiras, VI, 165

sábado, 31 de agosto de 2013

A Norte não há cegonhas



Andei pelo Norte, percorri vales e montanhas que caem a pique sobre casas enterradas no verde dos prados. Fui tomada pelo frenesim das pequenas vilas de sabor medieval, desenhadas pelo Barroco tardio, aonde um cheiro vago de inquisição ainda esmaga algumas almas.
Estradas sucessivas falam dos excessos e servem de refúgio a homens com realidades paralelas. As palavras gritam-se nos ares, num receio ardiloso de não serem escutadas. 
Ouvi risos dignos de Laurent Joubert e, por isso susceptíveis de resolverem todos os problemas. Não fora eu conhecedora de Plutarco, que há muito nos preveniu que existe algures nas Índias um lugar habitado por homens sem boca e que se alimentam apenas de odores, incapazes da faculdade do riso... e teria acreditado estar num lugar feliz. 
Andei pelo Minho aquecido por incêndios e, no coração das noites, caminhei à beira-mar da minha juventude actualizando os lugares da recordação.
O calor húmido trouxe-me saudades da lonjura, porque a norte não há cegonhas...

Ana


domingo, 25 de agosto de 2013

Presente

http://www.galeriandre.com.br/vito-campanella/
Quando penso no presente, a única metáfora que encontro plasma-se nos quadros de Vito Campanella: um mundo onírico de humanos sem rosto ou onde os rostos se substituem por máscaras.
Vito Campanella

terça-feira, 20 de agosto de 2013

46º ao sol...

Alice no País das Maravilhas,  Dreamstime.com

Caminhávamos com passos miudinhos, eu por ser tão menina e tu por os anos te estreitarem a caminhada. 

Sempre nos equilibrámos sobre a vida. 

Ensinaste-me a duvidar da realidade e das palavras dos humanos - «Cada um tem a sua história», dizias.
Tu descansavas  menos de meia hora em cada dia de calor - «Escalecias», como se diz no nosso falar alentejano. E, eu lia, enquanto o gato dormia a sesta no meu regaço.
Quando o teu olhar negro, de morena, se cruzava com o meu encandeado e claro de branquita, o entendimento era perfeito. Sempre li nesse olhar, e nas sábias palavras que tinhas, um desafio para melhorar e para crescer interiormente. Sempre soube que éramos herdeiras do saber livresco do teu pai e da ascendência árabe e campestre de tua mãe. O respeito pelos anciãos - essa palavra de tantos plurais e, porventura, mal assimilada pela Língua - foi uma herança que o mediterrâneo nos trouxe. Eles, os sábios da nossa cultura materna. Por isso, o monte para onde caminhávamos se chama «Falcão»...

Um dia partiste, numa hora de calor de Setembro, aos noventa anos e enquanto dormias...

Lembro-te, agora, ainda refugiada do calor que a nossa terra quente respira, a recordar o deserto, aqui tão perto. Evoco-te, avó, pois há um desajuste imenso entre a tua lição da minha infância e este tempo ligeiro e fútil que cada um tenta exibir de «maravilha», enquanto o Verão corre e torra as mentes, embotando a realidade.

Um dia, será necessário acordar no país das sombras.



Ana




Este Céu Cheio de Terra, Max Tilmann

domingo, 11 de agosto de 2013

Biblioclastas

Figueira da Foz, 2013 - José Alves
Vivemos num claro país rente ao mar. Detenho-me a pensar num livro a que retorno, pois acredito que neste tempo de convenientes, resilientes e resistentes tudo se apouca ao sabor de uma geração facciosa e clubística. Despreza-se o intelecto, morada impertinente, e banaliza-se no «politicamente correcto» um atraso civilizacional assustador. Esta é, por certo, a mais subtil forma de ignorância e o sinal óbvio do fim de uma civilização.
Existem formas ignóbeis de desprezo, a pior de todas é a da intolerância para com o saber daqueles que não são duplos de nós próprios. Isso aconteceu na História da Humanidade e repete-se. Fernando Báez explica-o bem na obra a que retorno.


Ocorre-me esta reflexão, perante a forma volúvel como foram noticiadas a morte e as exéquias de Urbano Tavares Rodrigues. A sua arte literária, a sua carreira universitária e a sua índole não se reduzem a uma «militância», mas assim perpassou na comunicação social que tudo aligeira sem massa crítica nem conhecimento. Habitando o sistema educativo entendo esta falta de profundidade, este verniz de pudor cretino, este clamor de aparências e cores de papagaios tropicais que povoam o nosso Verão boreal. Tantos egos e tantos vazios...tanta ruína, e a pior de todas é a humana!

Vivemos um ocaso «à beira-mar plantado».

Figueira da Foz, 2013 - José Alves

No dia 9 de Agosto de 2013
houve uma vaga de calor. De certo modo
ele morreu dentro de um seu romance-
Não foi notícia de abertura. Os telejornais
mostraram mulheres gordas em Carcavelos
e um sujeito pequenino (parece que ministro)
a falar de “cultura política nova.”
Mais tarde este dia será lembrado
como a data em que morreu
Urbano Tavares Rodrigues.

Manuel Alegre
Lisboa, 9/8/2013


Este o romance que inspirou Manuel  Alegre