Rara Avis in Terris, JUVENAL, Sátiras, VI, 165

quinta-feira, 29 de maio de 2025

Florescer no deserto

 

Deserto do Neguev, 2019 


    Passaram-se os dias e o Rara Avis sempre assim foi - silencia-se quando o labor dos dias me solicita até ao excesso. Os meus amigos já conhecem o significado da minha ausência: é a vida a clamar por mim.
  Tanta coisa aconteceu, entretanto! Depois dos muito quilómetros, de tanta luz a ferir o meu olhar, cá estou de regresso.
  Resta-nos florescer no deserto! Talvez, naquele sentido da grande resiliência perante as tantas adversidades e tamanha aridez - a velha lição do Livro. 
  O sangue das guerras e o grito dos homens não parecem suficientes para calar o velho Deus - haverá, ainda, um Justo? 
 Quando, quase criança (culpa das bibliotecas itinerantes da Gulbenkian) lia Rousseau, estava longe de imaginar no que se transformaria a sociedade e a natureza humana de alguns líderes sociais. Esse velho suíço (antes da Suíça) bem nos avisou que, sem uma sociedade que não corrompa a natureza humana, o Estado deixa de sobreviver. Talvez, por isso, o perseguiram e chamaram de "impostor". Conhecemos os seus limites teóricos e não é disso que aqui falo, já se sabe...
    
     
    

domingo, 11 de maio de 2025

Abandonos

 

https://prehistoricportugal.com/megaliths/


    Andamos por aí, sempre foi assim. Somos andarilhos natos. Sê-lo-emos, decerto, enquanto as pernas o permitirem. Tu apaixonas-te pela História e eu inebrio-me com os sons, os odores, o silêncio, os encantamentos de uma luz coada sobre a planície. Depois, escuto-te e enriqueço.

    Lamentamos o abandono a  que vão sendo soltos os lugares: capelas caídas, sítios megalíticos empilhados depois das sucessivas lavouras e, mesmo quando anunciados em rotas turísticas, acessos que a invernia vai tornando inacessíveis. Como é possível? Como é possível que Évora não core de vergonha perante o estado a que chegou o acesso ao Cromeleque dos Almendres? Sete mil anos deixados ao acaso, repletos de turistas e de estudiosos...


Ana - Maio 2025

    A uma altura em que se digladiam retóricas ocas, fica bem claro como alguns aspectos são completamente esquecidos. Caminhemos, no entanto, como das tantas vezes em que aqui viemos. Hoje, foram cerca de três quilómetros  a pé para lá chegarmos. A quem interessa a História? A quem interessa que se esqueça a História?

Ana - Maio 2025

    Valha-nos a beleza do montado...

    

terça-feira, 6 de maio de 2025

Céu Plúmbeo

 

Bettina Baldassari

Olha, no céu plúmbeo, uma pomba

voa serena sobre o verde e as flores.

Anda, retira de tua alma as dores

e aspira o polén de vida que tomba.


Que tomba da corola solene e bela

e perfuma o cinzento de silêncio e ar!

Leva doçura à alma eleita para amar,

traça, com tuas mãos, a felicidade singela.


Singela na beleza e o seu raio inunda

a alma triste onde a saudade dói...

com ecos de lonjura, fera e rotunda!


Plúmbeo o céu, o Sol, o cinzento destrói.

E não temas, tu és a razão profunda...

Ama! Pois, afinal, a vida se constrói.


                                 Ana Tapadas, Sul Sereno, editora Europa, 2024, p. 38





quinta-feira, 24 de abril de 2025

Estarei ali...algures! Teria dezasseis anos feitos há pouco.

 

Fernando Correia, Abrantes, 1974




"Parece que foi ontem... parece que foi nunca".

Eduardo Lourenço


Fernando Correia, Abrantes, 1974

Este dia é um canteiro
com flores todo o ano
e veleiros lá ao largo
navegando a todo o pano.
E assim se lembra outro dia febril
que em tempos mudou a história
numa madrugada de Abril,
quando os meninos de hoje
ainda não tinham nascido
e a nossa liberdade
era um fruto prometido,
tantas vezes proibido,
que tinha o sabor secreto
da esperança e do afecto
e dos amigos todos juntos
debaixo do mesmo tecto.

                   
José Jorge Letria


Nota: eram pretas as nossas batas de Liceu.

quarta-feira, 16 de abril de 2025

"Chamo-Te porque tudo está ainda no princípio"

 

Alentejo, 2025


Chamo-Te porque tudo está ainda no princípio
E suportar é o tempo mais comprido.

Peço-Te que venhas e me dês a liberdade,
Que um só dos Teus olhares me purifique e acabe.

Há muitas coisas que eu não quero ver.

Peço-Te que sejas o presente.
Peço-Te que inundes tudo.
E que o Teu reino antes do tempo venha
E se derrame sobre a terra
Em Primavera feroz precipitado.

                                               Sophia de Mello Breyner Andresen, Coral, 1950



Alentejo, 2025


    Que este tempo de passagem vos seja leve e doce, meus amigos!


Pessach/Páscoa