Rara Avis in Terris, JUVENAL, Sátiras, VI, 165

sábado, 6 de agosto de 2022

"E que lhe ofereçam fantasia"

 

Ana Luísa Amaral, Jornal de Notícias, 6-8-2022


    Tinha agora um ar cansado, estava magra e envelhecida...como poderia ter só 66 anos? A doença levara-lhe aquele ar que habitou as minhas aulas e os recursos que a colocavam a falar na primeira pessoa para os meus alunos. Todos se aperceberam que a sua poesia era muito hábil, por vezes genial, com a mestria de quem conhecia muito bem outros autores e, também ela, os ensinara a outros alunos. Todos se aperceberam que ela nunca suplantou o meu amor por outros poetas, mas o ser feminino e doméstico de onde retirava as suas representações de poeta eram admiráveis e surpreendentes. Representações inesperadas e surpreendentes transfiguravam o quotidiano em densidade do imaginário. A sua caligrafia fluída como a fragilidade da Vida. 
    Que ano este, feito de partidas! Valha-nos a ideia de que nem os poetas, nem aqueles que muito amamos caem no esquecimento.
    


sábado, 16 de julho de 2022

"Aprender a ler as sombras"

 




    Andam os dias como sabemos. Tiranias e guerras; mais de mil incêndios, em dois dias, num país que acreditávamos de clima temperado; uma pandemia que ainda grassa; o luto; a luta.
    O meu Alentejo escalda, o meu trabalho não me larga. Quando saio, após o almoço, e atravesso o parque com a roupa negra que agora me cobre, o Sol diz-me que nem os pássaros ousam voar,  pergunta-me aonde vou eu de garrafa de água na mochila e que pressa é esta que me acelera o coração que já foi jovem.
    Do livro que agora leio, roubei o título de hoje...
    Andam os dias como sabemos e os burocratas tomaram o assento dos sábios de outrora. Ironicamente, de tão sistemáticos, parecem não vislumbrar o resultado das suas acções. Creio que se afogaram na luz azul dos seus computadores e lá ficaram prisioneiros de grelhas e de mapas desconhecidos. Diferentes que são daqueles escribas que gravavam com as suas mãos, num esforço ritmado de artesãos, os longos códigos cuneiformes. Assim nasciam as bibliotecas, assim os podemos ler até hoje. 



Museu de Israel, Jerusalém (José Alves, 2019)



   "Os signos inertes de um alfabeto tornam-se significados plenos de vida na mente. Ler e escrever alteram a nossa organização cerebral." 
                                      Siri Hustvedt, Vivir, pensar, mirar



Médio Oriente (José Alves, 2019)

    Que dificuldade terei sempre para compreender que a Humanidade se perca e caminhe de abismo em abismo! Assim, resta-me este destino irremediável de ir a sítios obscuros na tentativa de "Aprender a ler as sombras".


Ana

sexta-feira, 8 de julho de 2022

Sê tu a palavra

 

Mar Egeu, Creta - José Alves, 2012



1. Sê tu a palavra, branca rosa brava. 2. Só o desejo é matinal. 3. Poupar o coração é permitir à morte coroar-se de alegria. 4. Morre de ter ousado na água amar o fogo. 5. Beber-te a sede e partir - eu sou de tão longe. 6. Da chama à espada o caminho é solitário. 7. Que me quereis, se me não dais o que é tão meu?

                            Eugénio de Andrade, Ostinato Rigore, 1964




Creta, José Alves - 2012

segunda-feira, 20 de junho de 2022

Esquecidos: expulsos do país

 

Dancing trees, Pantai Walakiri


Ouço José Rentes de Carvalho que, aos 92 anos, caminha sem apoios e fala sem embargos. Que bem caracteriza a portugalidade! As palavras, a que chama "pepitas de ouro", saem-lhe sem afasia alguma e sem bordões de linguagem - espantoso cérebro juvenil pleno de vivências e de argúcia!
"Os políticos actuais são de uma elite do Norte e eu sou de uma pobreza do Norte".
Que falta faz a memória desse tempo antigo, na lucidez de quem observa a civilização actual! 
Tudo parece liquefeito, como se, actualmente, os olhares apenas resvalassem na superfície das coisas.
Também ele tem um blogue, que aqui vos divulgo:

O Blogue:

A entrevista de hoje:

A obra:


 

terça-feira, 14 de junho de 2022

Sol destemperado

 

Cromeleque das Fontainhas, Mora,  Alentejo


     Perco-me e encontro-me nestes dias de Sol destemperado. Com picadas do calor abrasado sobre a minha tez clara, suponho os mais de quarenta graus que tornam a atmosfera estranhamente apocalíptica. Acinzenta-se, pardacento, o céu. Pássaros atordoados voam baixo e ruidosamente. Sinais de um tempo de agouros suspensos.
    Tendo, sempre, para o equilíbrio anímico. Tesouro que os que partiram me souberam aferrolhar. Riqueza inaudita que invariavelmente me é dada nessas bravatas de me testar ao limite...ilhas, desertos, lugares inseguros pelos quais os homens se digladiam, caminhadas ofegantes...assim me ocupam os ócios desenhados.
       Aqui, na charneca, as flores secaram. Aqui, os ancestrais habitaram. Mas, que futuro terão os meus jovens alunos que amanhã partirão expectantes de Futuro?


Ana