Rara Avis in Terris, JUVENAL, Sátiras, VI, 165

domingo, 25 de abril de 2021

Com Fúria e Raiva

 

                                                           

Fonte: https://www.abrilabril.pt

                                                   

Com fúria e raiva acuso o demagogo                                            

E o seu capitalismo das palavras

 

Pois é preciso saber que a palavra é sagrada

Que de longe muito longe um povo a trouxe

E nela pôs sua alma confiada

 

De longe muito longe desde o início

O homem soube de si pela palavra

E nomeou a pedra a flor a água

E tudo emergiu porque ele disse

 

Com fúria e raiva acuso o demagogo

Que se promove à sombra da palavra

E da palavra faz poder e jogo

E transforma as palavras em moeda

Como se fez com o trigo e com a terra


1977. Sophia de Mello Breyner Andresen, O Nome das Coisas,

Moraes Editores

domingo, 18 de abril de 2021

Presencial

 


Médio Oriente, José Alves - 2019



« Queria ter a profundidade dos peixes

E a liberdade dos homens»,

 Daniel Faria, O livro do Joaquim, ed. Quási, pág.71


Em qualquer situação o olhar paira sobre as flores, nelas nos detemos para continuar a jornada, elas nos incentivam a caminhada sobre um tempo dividido, sob um Sol abrasador. Há um vento de que não localizo a origem: bafo incendiado do deserto ou sopro indeterminado de um mar sempre próximo?

A memória é o espaço que habito. Páginas que se avolumam e respiram a temeridade dos dias. A sensação de que em qualquer lugar é o meu lugar. Uma empatia serena por cada ser...o meu território íntimo não é uma terra disputada ou talvez no meu sangue corra a diáspora.


(Cá de casa)


Amanhã, o amanhecer será mais suave. Regresso emotivo ao espaço dos sonhos futuros que lerei em cada olhar. E, alguns, a isto chamam trabalho dos dias. Não! São pontes para o Futuro...


Ana


domingo, 4 de abril de 2021

O lugar onde sempre estamos certos


Jerusalém, 2019 (José Alves)

Do lugar onde sempre estamos certos

nunca brotarão

flores na primavera.

 

O lugar onde sempre estamos certos

é batido e duro

como um pátio.

 

Mas dúvidas e amores

esfarelam o mundo

como uma toupeira, um arado.

 

E um murmúrio será ouvido no lugar

onde havia uma casa —

destruída.

 

Yehuda Amichai, Terra e paz – antologia poética, tradução Moacir Amâncio

Original:



quarta-feira, 17 de fevereiro de 2021

E@D

 

Rob Gonsalves


TEMPO

 

Tempo — definição da angústia.

Pudesse ao menos eu agrilhoar-te

Ao coração pulsátil dum poema!

Era o devir eterno em harmonia.

Mas foges das vogais, como a frescura

Da tinta com que escrevo.

Fica apenas a tua negra sombra:

— O passado,

Amargura maior, fotografada.

 

Tempo…

E não haver nada,

Ninguém,

Uma alma penada

Que estrangule a ampulheta duma vez!

 

Que realize o crime e a perfeição

De cortar aquele fio movediço

De areia

Que nenhum tecelão

É capaz de tecer na sua teia!

 

Miguel Torga, Cântico do Homem, Coimbra editora, p.p. 51-52


Muito devagar, muito devagar...que agora os dias do Ensino à distância nos maceram o olhar, difícil é chegar até este Sul. Muito lentamente irei saldando a minha dívida de visitas às páginas amigas.

                                                                Saúde!


terça-feira, 26 de janeiro de 2021

São os tempos!

 

Alto Alentejo, Janeiro 2021

Quebro o gelo, com uma passada larga. Conheço o desenho de cada passo, pois em cada dia repito esta passagem. O parque amanhece e carrega-se da renovada esperança de mais um dia que desponta. A luz limpa é um logro. A friagem desceu do zero e ela lê melhor a realidade.
Caeiro falar-te-ia do «cubo da sensação», mas eu falo-te deste animal do Sul e do Sol que sente o desconforto do gelo.

Alto Alentejo, Janeiro 2021

Podes imaginar a samarra verde, a pele pálida, a máscara ironicamente aconchegante nesta alba...só não sabes do calor íntimo e revoltado. Ah! Não sabes como a injustiça revolta! Como a intempérie é, talvez, necessária e urgente...
Não culpes este chão. Ele conhece os tiranos que o pisaram. Não culpes este chão!

Alto Alentejo, Janeiro 2021

A intempérie chegará! Os sonhos jorrarão como esta água, a cântaros...e lavarão os rios que secaram no Verão. 
Não bramas, aturdindo a ignorância, pois dela se constroem as grades. Só as vozes não se aprisionam, só o sopro íntimo erguerá a obra. Amainará a chuvada. 

Alto Alentejo, Janeiro 2021

Caminho no parque, sob a chuva que fustiga, com uma passada larga. 
Do lado de lá o infindável trabalho dos dias: arremessar sementes ao Futuro em salas plenas de esperança!
Não culpes este chão!